Zico, o mito.

Hoje é dia de abrir aspas para um amigo que escreveu um texto incrível sobre o meu grande ídolo, Zico.
Com a palavra, o grande Depa (Marcelo de Paulos), PHD em tudologia e rubronegro de carteirinha.

 

“Outro dia, tive que responder a alguns amigos tricolores e botafoguenses sobre um assunto recorrente: a detração do Zico. Parece prática obrigatória nas hostes das outras torcidas do Rio tentar diminuir o único homem que honrou a camisa 10 de Pelé. As acusações normais estavam presentes: jogador de clube, perdedor de Copas, craque de clube pequeno na Europa. Algumas novas se juntavam: pseudo-herói de história enfadonha, menosprezador do Brasil. Lá vai minha resposta…

Zico é o caçula de uma família de boleiros católicos de Quintino, que realizou feitos gigantes dentro e fora do campo. Talvez a característica mais marcante em sua carreira tenha sido o de muitas vezes decidir pelo caminho mais duro: o certo.

O primeira dos feitos foi o que fez com a própria natureza. Franzino como um Bebeto, transformou seu corpo com disciplina e profissionalismo. Via a força de jogadores como o Pelé e sabia que não haveria mais espaço no futebol para Ypojucans. Transmutou-se para o corpo de um atleta, numa era pré-anabolizantes. (Ninguém vai me convencer de que os problemas recorrentes com os joelhos e com o peso do Ronaldo não tem nada a ver com anabolizantes…)

Outro feito gigante foi o que mais incomoda a vcs: ele reverteu o equilíbrio das forças no Rio. O Flamengo era freguês do Botafogo. Não tinha um título nacional. Tínhamos muito menos Cariocas que o Fluminense. A torcida era só maior que as outras. O grande ídolo era o Dida. Hoje, temos mais títulos que qualquer um, todos são nossos fregueses, e a torcida é esmagadoramente maior do que qualquer outra no planeta. E temos um ídolo que é maior para a torcida até do que Garrincha é para o Botafogo. Mais que isso: todos os adversários que viveram a geração Zico são traumatizados com o Flamengo.

Mais um: o exemplo. Ele pode ser chato – e é. Mas sempre foi um líder positivo. Aquele time do Flamengo só foi o que foi porque ele estava lá. Porque ele estava lá inspirando a molecada. Porque ele estava lá mostrando que se dedicar nos treinamentos vale a pena. Porque ele dava orientações aos mais novos. Porque chamava a marcação em campo para que os outros jogassem. Porque resolvia a parada quando se esperava isso dele. Porque fazia os outros jogarem. Em seu tempo, fez caras como Nunes e Marinho serem convocados para a Seleção. Além, claro, de Raul, Leandro, Mozer, Junior, Vítor, Andrade, Adílio e Tita.

Por tentar fazer o que era certo (hoje batem palmas pelos princípios do Kaká por ficar no Milan!), retardou sua ida para a Europa. Acabou indo para um time pequeno, que fez grande. Udine tem estátua dele. Sofreu contusões e a estrutura do clube não permitiu que se recuperasse direito. Isso, o frio, as crianças e um empresário pouco confiável aceleraram sua volta. Para casa. Nenhum dos grandes fez isso. Venceu mais um Estadual e um Brasileiro pelo time do seu coração.

Mais difícil do que qualquer outro obstáculo enfrentado por qualquer um dos grandes jogadores da história, Zico venceu uma contusão invencível. Não a ruptura de um tendãozinho patelar. E não em uma era de avanços tecnológicos em medicina esportiva. Era tudo na faca. Por pouco não se viciou em morfina para superar as dores. E não foi uma contusão boba, que acontece sozinha. Ele foi atacado de forma vil e brutal, numa quarta à noite chuvosa no Maracanã. Nenhum dos grandes sofreu isso.

Ainda mais do que superar, ele optou pelo caminho mais difícil. Acelerar sua recuperação, mesmo que isso lhe custasse a saude e o resto da carreira. Tudo para poder jogar vinte minutos por jogo numa Copa do Mundo. Simplesmente porque sabia que o Brasil inteiro precisava do 10. Eu sei que cada um de vcs sentia um sopro de esperança quando o Galinho aparecia na beira do campo em 86. Essa é a sensação mágica de ter um super-herói em campo. Ele entrou e resolveu muitas. Perdeu um pênalti. Mas durante o jogo. O Brasil ainda teve ourtas chances. Na hora do vamovê, ele fez o dele. Sócrates, a inspiração do Maicosuel, perdeu. Culpar o Zico pela perda da Copa é falta de caráter. É trocá-lo por Barrabás.

Pelé disse que o jogador que mais se aproximou dele foi Zico. Foi eleito o melhor jogador do mundo pela World Soccer (anterior ao prêmio da Fifa) no ano em que chegou à Europa (no ano seguinte, ficou contundido e perdeu para Platini, que venceu a Eurocopa pela França). É considerado o maior batedor de faltas de todos os tempos.

Ele ainda inventou o futebol no Japão, outro lugar onde tem estátua dele. Jogou até os 41 anos. Não como o Romário, exigindo para jogar sem treinar, para gozar de privilégios que os colegas não tinham. Mas, como sempre, como um exemplo a ser seguido. E ainda foi treinador (bem sucedido) do time, coisa que índoles como a do Romário não permitem.

A “soberba” com relação ao Brasil é uma grande dificuldade que o cara tem de lidar com a escória. Isso pode ser um defeito para muitos de vcs. Mas é de se perguntar por que nenhum de nós está diretamente envolvido com o projeto de seu clube de coração…

A verdade é todos os adversários devem se corroer por nunca terem tido um ídolo como o Zico. Mais do que um super-herói em campo, ele é um exemplo que qualquer um pode usar para criar seus filhos. Dizer diferente é desdém. Eu fui criado assim e sou muito agradecido ao grande exemplo que recebi. Muitas vezes tomo o caminho mais difícil.

Tenho uma foto tirada em janeiro de 1987, na sala de musculação da Gávea. Todos os jogadores estavam de férias. Zico estava lá, tentando se recuperar das agressões que sofreu e do sacrifício que fez por si próprio e por todos vcs. Para vencer mais um campeonato Brasileiro.

zico-janeiro-de-1987

Essa foto me inspirou a passar em Stanford. Só isso já valeria. Mas sei que tem mais.

Como fez na virada dos anos 70 para os 80, Zico será parte integrante de uma enorme mudança pela qual o futebol brasileiro passará no futuro próximo. Esperem. Ele retornará!”

10 Responses to “Zico, o mito.”

  1. Arthur Muhlenberg says:

    Show de bola

  2. Leo Carbonell says:

    Se olharem meu nome já pensarão: lá vem pedra do tricolor. Mas não. Zico é o melhor jogador que eu vi jogar, completo, um exemplo mesmo. Sem mais.

  3. dePa says:

    Muito honrado de sua parte, Carbona. E raro vindo de um tricolor. Obrigado pela liberdade e pela sinceridade.

  4. Babi says:

    Adorei, Depa! Penna, parabéns pelo blog.

    Eu sou filha de um gaúcho e já nasci com a camisa do colorado no berço. Mas com 10 anos – e como toda menina, sem ligar pro futebol – era popular no colégio pois sabia autografar como Zico. Hoje, em tempos de Obina, tenho certeza que me tornei flamenguista por causa da paixão pelo ídolo, assim como a maioria dos flamenguistas da minha geração.

  5. que honra ter você por aqui no bullshitando, babi!
    eu também sei fazer o autógrafo do zico…
    mas na época do colégio, eu treinava na gávea e levava autógrafos do galo para os meus amigos. o cara era o meu super herói, de carne e osso.
    vlw

  6. Rodrigo Castor says:

    Quem?

  7. manuelfcojr@uol.com.br says:

    Zico foi o melhor jogador brasileiro que vi até hoje, quando comecei a me interessar por futebol a era Pelé estava terminando. Ele era muito superior a todos de sua época. Com relação a Copas do Mundo quero ressaltar que após ter sofrido aquela entrada criminosa no joelho, que, INFELIZMENTE, foi um divisor de águas em sua carreira. Com muito sofrimento estava em recuperação, foi chamado para a Copa de 86 e deveriam ter colocado outro jogador para bater um pênalti, pois ali estavam outros grandes astros, como Sócrates, Falcão, mas deixaram para ele a responsabilidade, foi corajoso, mas infelizmente não converteu. Outro ponto. na Copa de 82, se não me engano, o Brasil jogava contra a Itália, o placar acho era 1 a 0 para a Itália. No finalzinho, Zico em arrancada fulminante dribla zagueiros, entra na área, iria marcar, mas é seguro pelo zagueiro pela camisa, que se rasga completamente. Todos viram, mas o árbitro mandou o jogo continuar e logo depois encerra a partida. A CBF deveria ter representado o árbitro, entrado com alguma medida, pois foi escandaloso. Há até uma charge, acho que na folhade s.paulo, zico com a camisa rasgada, e o rasgo é o formato do mapa do Brasil. Obrigado Zico por tudo que fez pelo nosso Futebol, pela sua arte no drible, nos passes e lançamentos, nas batidas de falta (a bola subia e descia repentinamente), pela sua frieza nas batidas de pênalti. Lutador incansável.MUITO OBRIGADO.

  8. manuel says:

    ps. apenas quero retificar acima, o jogo Brasil e Itália 82 foi 3 a 2. Mas reitero, o penalti sofrido por Zico foi visivel para todos, inclusive para o Arbitro, que, por motivos que só ele sabe, não marcou.

  9. manuel says:

    Zico foi o melhor jogador brasileiro que vi. Muito superior a todos de sua época. Dribles curtos e insinuantes, batidas de falta precisas (a bola subia e descia repentinamente), finalizador frio frente a frente com o goleiro. Arte e precisão. Só uma entrada criminosa no joelho poderia ter prejudicado sua carreira, mesmo assim continuou lutando. Em 82 sofreu penalti contra a italia no final do jogo,flagrante, camisa totalmente rasgada pelo zagueiro, mas o juiz próximo do lance, mandou prosseguir, quase em seguida encerrou a partida e perdemos. A CBF deveria ter tomado alguma atitude, pois o árbitro mudou a Copa do Mundo, desclassificando o Brasil. Em 86, ainda em tratamento, que nunca terminou, pois a contusão foi gravissima, foi colocado para bater um penalti, quando ali estavam jogadores em plena forma como Sócrates, Junior, Falcão e infelizmente perdeu. Um CRAQUE um LUTADOR INCANSÁVEL. Jamais esquecerei as tardes de domingo com os jogos do Flamengo na década de 80. OBRIGADO ZICO, muito obrigado.

  10. Virgilio Junior says:

    Sensacional! Parabéns pelo texto, sem mais a acrescentar.

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