Hoje assisti a entrevista do Gilberto Gil para a Marília Gabriela no GNT.
Sempre achei Gil um verdadeiro gênio da raça. Sempre admirei a sua infinita capacidade como letrista, compositor e também como intérprete e músico.
Lembro de um show, há vários anos atrás, quando ele botou o Stevie Wonder no bolso, durante o Free Jazz. Eu tinha ido com uma expectativa gigante por esse show, mas o que eu vi foi uma performance inesquecível do Gil e sua banda fabulosa, com Artur Maia no baixo e Robertinho Silva na bateria.
Gil sempre foi cativante, carismático. Ele sempre foi um cara que esteve à frente do seu tempo, tendo encantado diversas gerações. Talvez ele realmente tenha sido o maior de todos os artistas da MPB de todos os tempos. Maior que Chico, Caetano, Milton, Djavan, entre outros.
O seu grande pecado foi virar ministro.
Não dá para dizer que ele tenha perdido tempo, porque infelizmente nada de novo aconteceu nesses últimos 5 ou 6 anos na música brasileira.
Mas particularmente, eu não acho que ele tenha emprestado tanto talento no campo político desse (des)governo que vivemos. Continuo achando que o país não valoriza tanto a sua cultura, a sua produção – e Gil não foi capaz de mudar esse cenário. Mas não sei se esse desafio cabe para algum ser humano, principalmente no governo Lula.

Gil voltou – e aos 66 anos – mostra apetite de menino lançando um disco novo, todo disponível para download gratuito e também com faixas para creative commons.
A entrevista foi fantástica, apesar da evidente esquiva de um político Gil – quando perguntado sobre eventuais críticas ao governo. Ele manteve a elegância e preferiu concentrar seus pensamentos e suas músicas sobre outros temas mais inspiradores.
Marília Gabriela insinuou que gostaria de ouvi-lo sobre temas ásperos, como a sua visão sobre a morte. Gil disse que esse não era um tema áspero. Esse era um tema corriqueiro para ele, que via a coisa com naturalidade e com tranqüilidade. Ele sabe que sua vida já está mais para o fim – e ainda assim lida com a questão de uma forma muito verdadeira, sem buscar desvios ou mesmo sem se enganar.
Gil escreveu uma música sobre o assunto. É a faixa de abertura desse novo disco (que ainda não ouvi). Também não conhecia a música e ouvi pela primeira vez nessa entrevista. A letra é singela e comovente.
“Não Tenho Medo da Morte”
Não tenho medo da morte, mas sim medo de morrer
- Qual seria a diferença? – você há de perguntar
É que a morte já é depois que eu deixar de respirar
Morrer ainda é aqui na vida, no sol, no ar
Ainda pode haver dor ou vontade de mijar.
A morte já é depois já não haverá ninguém
Como eu aqui agora pensando sobre o além
Já não haverá o além o além já será então
Não terei pé nem cabeça nem figado, nem pulmão
Como poderei ter medo se não terei coração?
Não tenho medo da morte, mas medo de morrer, sim.
A morte e depois de mim
Mas quem vai morrer sou eu o derradeiro ato meu
E eu terei de estar presente assim como um presidente dando posse ao sucessor
Terei que morrer vivendo sabendo que já me vou
Então nesse instante sim sofrerei quem sabe um choque
Um piripaque, ou um baque, um calafrio ou um toque
Coisas naturais da vida como comer, caminhar
Morrer de morte matada. Morrer de morte morrida.
Quem sabe eu sinta saudade, como em qualquer despedida.