“O AMOR É IMPORTANTE. PORRA.”
Está escrito pelos muros da cidade de São Paulo. É uma epidemia urbana que, para quem presta atenção nessas coisas (como eu), acaba mudando um dia, uma semana, uma vida.
Parece que a cidade mais neurótica do Brasil quer dizer alguma coisa para a gente. Parece que é um grito aflito por socorro.
Ninguém mais aguenta tanta intolerância, tanto trânsito, tanta pressa, tanta aporrinhação. Isso lembra um post que fiz, há pouco mais de um ano atrás, também sobre uma frase fantástica pixada em um muro: “os anti-depressivos vão pararde funcionar“. No final das contas é quase sobre a mesma coisa. A gente cria as nossas próprias prisões e a cidade vai nos engolindo, nos distanciando da nossa essência.
Outro dia, o meu amigo Baracho contou a história de um conhecido dele, que subverteu completamente as expectativas e desarmou as armadilhas que estavam preparadas para ele.
É uma história digna de Forrest Gump, de um moleque muito bem nascido, que com 20 anos foi fazer um intercâmbio na Austrália. Tudo muito bem programado para que ele fosse passar 6 meses (ou algo assim). Passaram-se os 6 meses e ele pediu para estender por mais 6 meses. Os pais toparam, afinal de contas estavam investindo no futuro do filho. Tirando a parte emocional (saudades do filho), esse não era exatamente um grande sacrifício para a família abastada.
No final do novo período, Flávio (nome fictício, é claro) concluiu que ele não queria mais. Rasgou a passagem, porque não queria mais voltar pra casa, não queria mais a mesada dos pais, não queria mais nada do que esperava por ele aqui no Brasil. E assim, ele resolveu seguir em frente, rompendo com todas as amarras.
Correu os outbacks australianos, foi parar na Tanzânia vendendo morangos na beira da estrada. Escrevia mensalmente um email dando algumas notícias, mas não passava recibo de pobre-coitado. Ele estava feliz, se virando como dava e conhecendo o mundo. Nada de endereços, nada de celulares, nem direções no Google Maps.
A mãe chegou a mandar mais uma passagem, quando Flavio estava morando na Nova Zelândia. Ele não chegou nem a abrir esse envelope. Alphaville não era tão interessante assim e…depois de 3 anos rodando por aí, agora o caminho da volta parecia cada vez mais improvável.
Pouco depois, ele conheceu uma alemã, por quem se apaixonou. Foi viver em uma cidade de 650 habitantes no interior do interior do interior da Alemanha. Trabalhava como ajudante do pai da moça, um fazendeiro da região. Algum tempo se passou até que a namorada foi estudar na cidade grande, mas o nosso herói estava bem na fazenda e por lá ficou. Acabou comendo a cunhada e foi defenestrado pela família tradicional, indignada com o comportamento libertino do nosso herói.
Flavio não se fez de rogado e foi se desculpar com a irmã. Desculpas parcialmente aceitas e a vida seguiu em Berlim, numa república de estudantes. Flavio, passou ser o xodó da turma, cozinhando para a moçada e organizando festas em alemão fluente. Numa dessas festas, quando o caldo já tinha entornado para uma verdadeira orgia, a namorada resolveu dar um basta e expulsou Flavio com a roupa do corpo. Ficar de jeans e camiseta, sem um puto no bolso num frio de 10 abaixo de zero não é lá muito agradável. Os argumentos não convenciam a namorada a abrir a porta e Flavio (sem nenhuma vergonha na cara) resolveu voltar para a fazenda, para pedir uma ajuda financeira ao sogrão.
O coroa, bom coração como só, ficou com pena e acabou dando o dinheiro e um dia de teto para o brasileiro, que já planejava ir para a Itália.
A história da Itália começou quando Flavio ficou interessado em tirar um passaporte da comunidade européia, tendo pesquisado as origens do seu sobrenome. Foi para uma cidade pequena (não sei exatamente onde). Conheceu alguns amigos e já tinha até descolado um trampo como pizzaiolo em um pequeno restaurante local. Na sua primeira noite de folga, saiu com uns amigos e acabou envolvido em uma confusão em um bar. Quando viu, estava ao lado de mais 8 incautos na delegacia sem saber falar italiano e sem passaporte. É claro que foi preso.
A prisão dava duas “alternativas” a Flavio: ficar preso ou ser deportado para o Brasil. Bom…nessa altura do campeonato, os italianos queriam se ver livres de Flavio. Mandaram ele para a Tchecoslováquia em uma espécie de “purgatório” internacional, onde os gringos esperam por suas sentenças. Os oficiais resolveram devolver a liberdade a ele, desde que este voltasse (com a passagem paga) para o Brasil.
Há alguns dias atrás, Flavio desembarcou em Guarulhos. Voltou a tempo de comemorar o aniversário da sua mãe.
Pouco mais de 7 anos desde a sua partida, a família ficou muito feliz em tê-lo de volta. Mas Flávio sabe que a sua escolha não é exatamente igual aos planos que os outros fizeram para ele. Sem nenhum tipo de rancor ou mágoa, o seu único plano é a liberdade incondicional.
Flavio entendeu a tempo, onde estava a sua felicidade e resolveu tomar uma atitude. Ele literalmente vai atrás do seu destino.
Quando eu leio a tal frase no muro que dá título a esse post, eu penso nisso. As pessoas esquecem dos seus instintos, das suas necessidades mais primárias. Cada vez mais, nós vivemos para parecermos com o que se os outros esperam de nós. E é assim que acabamos esquecendo que “o amor é importante, porra”.







