Archive for the ‘Papo Cabeça’ Category

O amor é importante. Porra.

Tuesday, April 28th, 2009

“O AMOR É IMPORTANTE. PORRA.”

Está escrito pelos muros da cidade de São Paulo. É uma epidemia urbana que, para quem presta atenção nessas coisas (como eu), acaba mudando um dia, uma semana, uma vida.

Parece que a cidade mais neurótica do Brasil quer dizer alguma coisa para a gente. Parece que é um grito aflito por socorro.

Ninguém mais aguenta tanta intolerância, tanto trânsito, tanta pressa, tanta aporrinhação. Isso lembra um post que fiz, há pouco mais de um ano atrás, também sobre uma frase fantástica pixada em um muro: “os anti-depressivos vão pararde funcionar“. No final das contas é quase sobre a mesma coisa. A gente cria as nossas próprias prisões e a cidade vai nos engolindo, nos distanciando da nossa essência.

amor

Clique na imagem para ler outro post sobre o assunto.

Outro dia, o meu amigo Baracho contou a história de um conhecido dele, que subverteu completamente as expectativas e desarmou as armadilhas que estavam preparadas para ele.

É uma história digna de Forrest Gump, de um moleque muito bem nascido, que com 20 anos foi fazer um intercâmbio na Austrália. Tudo muito bem programado para que ele fosse passar 6 meses (ou algo assim). Passaram-se os 6 meses e ele pediu para estender por mais 6 meses. Os pais toparam, afinal de contas estavam investindo no futuro do filho. Tirando a parte emocional (saudades do filho), esse não era exatamente um grande sacrifício para a família abastada.

No final do novo período, Flávio (nome fictício, é claro) concluiu que ele não queria mais. Rasgou a passagem, porque não queria mais voltar pra casa, não queria mais a mesada dos pais, não queria mais nada do que esperava por ele aqui no Brasil. E assim, ele resolveu seguir em frente, rompendo com todas as amarras.

Correu os outbacks australianos, foi parar na Tanzânia vendendo morangos na beira da estrada. Escrevia mensalmente um email dando algumas notícias, mas não passava recibo de pobre-coitado. Ele estava feliz, se virando como dava e conhecendo o mundo. Nada de endereços, nada de celulares, nem direções no Google Maps.

A mãe chegou a mandar mais uma passagem, quando Flavio estava morando na Nova Zelândia. Ele não chegou nem a abrir esse envelope. Alphaville não era tão interessante assim e…depois de 3 anos rodando por aí, agora o caminho da volta parecia cada vez mais improvável.

Pouco depois, ele conheceu uma alemã, por quem se apaixonou. Foi viver em uma cidade de 650 habitantes no interior do interior do interior da Alemanha. Trabalhava como ajudante do pai da moça, um fazendeiro da região. Algum tempo se passou até que a namorada foi estudar na cidade grande, mas o nosso herói estava bem na fazenda e por lá ficou. Acabou comendo a cunhada e foi defenestrado pela família tradicional, indignada com o comportamento libertino do nosso herói.

Flavio não se fez de rogado e foi se desculpar com a irmã. Desculpas parcialmente aceitas e a vida seguiu em Berlim, numa república de estudantes. Flavio, passou  ser o xodó da turma, cozinhando para a moçada e organizando festas em alemão fluente. Numa dessas festas, quando o caldo já tinha entornado para uma verdadeira orgia, a namorada resolveu dar um basta e expulsou Flavio com a roupa do corpo. Ficar de jeans e camiseta, sem um puto no bolso num frio de 10 abaixo de zero não é lá muito agradável. Os argumentos não convenciam a namorada a abrir a porta e Flavio (sem nenhuma vergonha na cara) resolveu voltar para a fazenda, para pedir uma ajuda financeira ao sogrão.

O coroa, bom coração como só, ficou com pena e acabou dando o dinheiro e um dia de teto para o brasileiro, que já planejava ir para a Itália.

A história da Itália começou quando Flavio ficou interessado em tirar um passaporte da comunidade européia, tendo pesquisado as origens do seu sobrenome. Foi para uma cidade pequena (não sei exatamente onde). Conheceu alguns amigos e já tinha até descolado um trampo como pizzaiolo em um pequeno restaurante local. Na sua primeira noite de folga, saiu com uns amigos e acabou envolvido em uma confusão em um bar. Quando viu, estava ao lado de mais 8 incautos na delegacia sem saber falar italiano e sem passaporte. É claro que foi preso.

A prisão dava duas “alternativas” a Flavio: ficar preso ou ser deportado para o Brasil. Bom…nessa altura do campeonato, os italianos queriam se ver livres de Flavio. Mandaram ele para a Tchecoslováquia em uma espécie de “purgatório” internacional, onde os gringos esperam por suas sentenças. Os oficiais resolveram devolver a liberdade a ele, desde que este voltasse (com a passagem paga) para o Brasil.

Há alguns dias atrás, Flavio desembarcou em Guarulhos. Voltou a tempo de comemorar o aniversário da sua mãe.

Pouco mais de 7 anos desde a sua partida, a família ficou muito feliz em tê-lo de volta. Mas Flávio sabe que a sua escolha não é exatamente igual aos planos que os outros fizeram para ele. Sem nenhum tipo de rancor ou mágoa, o seu único plano é a liberdade incondicional.

Flavio entendeu a tempo, onde estava a sua felicidade e resolveu tomar uma atitude. Ele literalmente vai atrás do seu destino.

Quando eu leio a tal frase no muro que dá título a esse post, eu penso nisso. As pessoas esquecem dos seus instintos, das suas necessidades mais primárias. Cada vez mais, nós vivemos para parecermos com o que se os outros esperam de nós. E é assim que acabamos esquecendo que “o amor é importante, porra”.

Zico, o mito.

Wednesday, April 22nd, 2009

Hoje é dia de abrir aspas para um amigo que escreveu um texto incrível sobre o meu grande ídolo, Zico.
Com a palavra, o grande Depa (Marcelo de Paulos), PHD em tudologia e rubronegro de carteirinha.

 

“Outro dia, tive que responder a alguns amigos tricolores e botafoguenses sobre um assunto recorrente: a detração do Zico. Parece prática obrigatória nas hostes das outras torcidas do Rio tentar diminuir o único homem que honrou a camisa 10 de Pelé. As acusações normais estavam presentes: jogador de clube, perdedor de Copas, craque de clube pequeno na Europa. Algumas novas se juntavam: pseudo-herói de história enfadonha, menosprezador do Brasil. Lá vai minha resposta…

Zico é o caçula de uma família de boleiros católicos de Quintino, que realizou feitos gigantes dentro e fora do campo. Talvez a característica mais marcante em sua carreira tenha sido o de muitas vezes decidir pelo caminho mais duro: o certo.

O primeira dos feitos foi o que fez com a própria natureza. Franzino como um Bebeto, transformou seu corpo com disciplina e profissionalismo. Via a força de jogadores como o Pelé e sabia que não haveria mais espaço no futebol para Ypojucans. Transmutou-se para o corpo de um atleta, numa era pré-anabolizantes. (Ninguém vai me convencer de que os problemas recorrentes com os joelhos e com o peso do Ronaldo não tem nada a ver com anabolizantes…)

Outro feito gigante foi o que mais incomoda a vcs: ele reverteu o equilíbrio das forças no Rio. O Flamengo era freguês do Botafogo. Não tinha um título nacional. Tínhamos muito menos Cariocas que o Fluminense. A torcida era só maior que as outras. O grande ídolo era o Dida. Hoje, temos mais títulos que qualquer um, todos são nossos fregueses, e a torcida é esmagadoramente maior do que qualquer outra no planeta. E temos um ídolo que é maior para a torcida até do que Garrincha é para o Botafogo. Mais que isso: todos os adversários que viveram a geração Zico são traumatizados com o Flamengo.

Mais um: o exemplo. Ele pode ser chato – e é. Mas sempre foi um líder positivo. Aquele time do Flamengo só foi o que foi porque ele estava lá. Porque ele estava lá inspirando a molecada. Porque ele estava lá mostrando que se dedicar nos treinamentos vale a pena. Porque ele dava orientações aos mais novos. Porque chamava a marcação em campo para que os outros jogassem. Porque resolvia a parada quando se esperava isso dele. Porque fazia os outros jogarem. Em seu tempo, fez caras como Nunes e Marinho serem convocados para a Seleção. Além, claro, de Raul, Leandro, Mozer, Junior, Vítor, Andrade, Adílio e Tita.

Por tentar fazer o que era certo (hoje batem palmas pelos princípios do Kaká por ficar no Milan!), retardou sua ida para a Europa. Acabou indo para um time pequeno, que fez grande. Udine tem estátua dele. Sofreu contusões e a estrutura do clube não permitiu que se recuperasse direito. Isso, o frio, as crianças e um empresário pouco confiável aceleraram sua volta. Para casa. Nenhum dos grandes fez isso. Venceu mais um Estadual e um Brasileiro pelo time do seu coração.

Mais difícil do que qualquer outro obstáculo enfrentado por qualquer um dos grandes jogadores da história, Zico venceu uma contusão invencível. Não a ruptura de um tendãozinho patelar. E não em uma era de avanços tecnológicos em medicina esportiva. Era tudo na faca. Por pouco não se viciou em morfina para superar as dores. E não foi uma contusão boba, que acontece sozinha. Ele foi atacado de forma vil e brutal, numa quarta à noite chuvosa no Maracanã. Nenhum dos grandes sofreu isso.

Ainda mais do que superar, ele optou pelo caminho mais difícil. Acelerar sua recuperação, mesmo que isso lhe custasse a saude e o resto da carreira. Tudo para poder jogar vinte minutos por jogo numa Copa do Mundo. Simplesmente porque sabia que o Brasil inteiro precisava do 10. Eu sei que cada um de vcs sentia um sopro de esperança quando o Galinho aparecia na beira do campo em 86. Essa é a sensação mágica de ter um super-herói em campo. Ele entrou e resolveu muitas. Perdeu um pênalti. Mas durante o jogo. O Brasil ainda teve ourtas chances. Na hora do vamovê, ele fez o dele. Sócrates, a inspiração do Maicosuel, perdeu. Culpar o Zico pela perda da Copa é falta de caráter. É trocá-lo por Barrabás.

Pelé disse que o jogador que mais se aproximou dele foi Zico. Foi eleito o melhor jogador do mundo pela World Soccer (anterior ao prêmio da Fifa) no ano em que chegou à Europa (no ano seguinte, ficou contundido e perdeu para Platini, que venceu a Eurocopa pela França). É considerado o maior batedor de faltas de todos os tempos.

Ele ainda inventou o futebol no Japão, outro lugar onde tem estátua dele. Jogou até os 41 anos. Não como o Romário, exigindo para jogar sem treinar, para gozar de privilégios que os colegas não tinham. Mas, como sempre, como um exemplo a ser seguido. E ainda foi treinador (bem sucedido) do time, coisa que índoles como a do Romário não permitem.

A “soberba” com relação ao Brasil é uma grande dificuldade que o cara tem de lidar com a escória. Isso pode ser um defeito para muitos de vcs. Mas é de se perguntar por que nenhum de nós está diretamente envolvido com o projeto de seu clube de coração…

A verdade é todos os adversários devem se corroer por nunca terem tido um ídolo como o Zico. Mais do que um super-herói em campo, ele é um exemplo que qualquer um pode usar para criar seus filhos. Dizer diferente é desdém. Eu fui criado assim e sou muito agradecido ao grande exemplo que recebi. Muitas vezes tomo o caminho mais difícil.

Tenho uma foto tirada em janeiro de 1987, na sala de musculação da Gávea. Todos os jogadores estavam de férias. Zico estava lá, tentando se recuperar das agressões que sofreu e do sacrifício que fez por si próprio e por todos vcs. Para vencer mais um campeonato Brasileiro.

zico-janeiro-de-1987

Essa foto me inspirou a passar em Stanford. Só isso já valeria. Mas sei que tem mais.

Como fez na virada dos anos 70 para os 80, Zico será parte integrante de uma enorme mudança pela qual o futebol brasileiro passará no futuro próximo. Esperem. Ele retornará!”

11:11

Saturday, April 18th, 2009

De algum (bom) tempo pra cá eu tenho vivido uma estranha coincidência. Em quase todos os dias eu olho o relógio às 11:11.

Comentei isso com alguns amigos e o Fernand disse que existia alguma questão mística envolvendo essa “coincidência”. Aí, é claro que eu fui no Google para tentar descobrir o que estava rolando.

Eu não sou muito bom nesses assuntos esotéricos, mas as explicações são bem curiosas e existem uma série delas.

Pulando as partes mais complexas da explicação, basicamente existe uma teoria em que quando esse fenômeno acontece, trata-se de um progresso espiritual proposto pelo nosso próprio Ser Superior (whatever that it should means).  A conversa vai ficando mais profunda…

Reproduzo um trecho que encontrei nas minhas pesquisas pela internet, que explica a existência do Portal 11:11:

Entre 16 e 17/8/1987, houve a Convergência Harmônica que ancorou a 4ª dimensão. Muitos seres vieram nesta época para auxiliar e possibilitar esta ancoragem (vide artigo crianças especiais..). Em 11/7/1991 houve a grande Eclipse Solar que iluminou os canais para a abertura da entrada efetiva do Portal 11:11, em 11/1/1992. Em 11/11/91, houve a ativação planetária pela Ordem de Melquizedec, que abriu a porta para a antiga sabedoria. Com o Portal, foi dado um salto quântico que vem sendo reforçado na Terra.

Quando alcançamos um Merkabá (Nave Consciência – vide artigo…) de um grupo que atravessou o Portal 11:11, chegamos até a 7ªoitava. É o destino para a grande maioria. Aí, então, a Terra descansará já transformada. É aqui que se constrói o Novo, a Nova Terra, cujos habitantes viverão em Unidade. Então, o Portal 11:11 se transformará em 22. Neste ponto optamos se queremos ir mais além, para a 11ª oitava, onde o 22 se transformará em 44.
A 11ªoitava é a plataforma de lançamento para o Além do Além. Entretanto o mais importante é saber que os seres da 7ª oitava ou da 11ª e os do mais além, residem dentro de um modelo de Unidade, podendo ter contato entre si.

Alguém entendeu alguma coisa? Eu não.

Qual é o preço da amizade?

Sunday, August 31st, 2008

A resposta óbvia é: não tem preço. Mas eu diria um pouco mais…

Uma amizade verdadeira é o significado do que nós somos, é a nossa própria existência. Não sei muito bem se existe uma profundidade ou mesmo um grau de confiança necessário para conquistar uma amizade, mas sei que os amigos reais são ligados por uma espécie de cumplicidade muito profunda, meio difícil de explicar em palavras.

Na quinta-feira passada fui jantar com um dos meus maiores amigos, que infelizmente eu não via há muito tempo. Além de contarmos as principais novidades dos últimos tempos, nós também rimos das mesmas histórias de sempre e falamos sobre os mesmos assuntos (Flamengo, Rio de Janeiro, escola, ex-namoradas, viagens, festas, shows, etc) tudo com o mesmo empenho e brilho.

O meu amigo gosta de mim pelo que realmente sou e não pelo que eu me tornei. Ele me conhece muito bem. Acho que me conhece melhor do que eu mesmo. Em tantos anos, eu nunca precisei provar nada para ele e sempre tive o máximo da sua admiração.

Decidimos que vamos virar o ano de 2008 juntos, com nossas mulheres e filhas e com mais um casal de amigos. Falamos em viajar para Nova Iorque ou Buenos Aires e concluímos que seria mais legal alugarmos uma casa em Búzios.

No final das contas, nós não sabemos ainda aonde iremos, mas já decidimos que estamos dispostos a qualquer sacrifício para que o ano de 2009 comece da mesma forma para todos nós.

O verdadeiro ministério de Gil

Saturday, August 30th, 2008

Hoje assisti a entrevista do Gilberto Gil para a Marília Gabriela no GNT.

Sempre achei Gil um verdadeiro gênio da raça. Sempre admirei a sua infinita capacidade como letrista, compositor e também como intérprete e músico.

Lembro de um show, há vários anos atrás, quando ele botou o Stevie Wonder no bolso, durante o Free Jazz. Eu tinha ido com uma expectativa gigante por esse show, mas o que eu vi foi uma performance inesquecível do Gil e sua banda fabulosa, com Artur Maia no baixo e Robertinho Silva na bateria.

Gil sempre foi cativante, carismático. Ele sempre foi um cara que esteve à frente do seu tempo, tendo encantado diversas gerações. Talvez ele realmente tenha sido o maior de todos os artistas da MPB de todos os tempos. Maior que Chico, Caetano, Milton, Djavan, entre outros.

O seu grande pecado foi virar ministro.

Não dá para dizer que ele tenha perdido tempo, porque infelizmente nada de novo aconteceu nesses últimos 5 ou 6 anos na música brasileira.

Mas particularmente, eu não acho que ele tenha emprestado tanto talento no campo político desse (des)governo que vivemos. Continuo achando que o país não valoriza tanto a sua cultura, a sua produção – e Gil não foi capaz de mudar esse cenário. Mas não sei se esse desafio cabe para algum ser humano, principalmente no governo Lula.

gil.jpg

Gil voltou – e aos 66 anos – mostra apetite de menino lançando um disco novo, todo disponível para download gratuito e também com faixas para creative commons.

A entrevista foi fantástica, apesar da evidente esquiva de um político Gil – quando perguntado sobre eventuais críticas ao governo. Ele manteve a elegância e preferiu concentrar seus pensamentos e suas músicas sobre outros temas mais inspiradores.

Marília Gabriela insinuou que gostaria de ouvi-lo sobre temas ásperos, como a sua visão sobre a morte. Gil disse que esse não era um tema áspero. Esse era um tema corriqueiro para ele, que via a coisa com naturalidade e com tranqüilidade. Ele sabe que sua vida já está mais para o fim – e ainda assim lida com a questão de uma forma muito verdadeira, sem buscar desvios ou mesmo sem se enganar.

Gil escreveu uma música sobre o assunto. É a faixa de abertura desse novo disco (que ainda não ouvi). Também não conhecia a música e ouvi pela primeira vez nessa entrevista. A letra é singela e comovente.

“Não Tenho Medo da Morte”

Não tenho medo da morte, mas sim medo de morrer
- Qual seria a diferença? – você há de perguntar
É que a morte já é depois que eu deixar de respirar
Morrer ainda é aqui na vida, no sol, no ar
Ainda pode haver dor ou vontade de mijar.

A morte já é depois já não haverá ninguém
Como eu aqui agora pensando sobre o além
Já não haverá o além o além já será então
Não terei pé nem cabeça nem figado, nem pulmão
Como poderei ter medo se não terei coração?

Não tenho medo da morte, mas medo de morrer, sim.
A morte e depois de mim
Mas quem vai morrer sou eu o derradeiro ato meu
E eu terei de estar presente assim como um presidente dando posse ao sucessor
Terei que morrer vivendo sabendo que já me vou

Então nesse instante sim sofrerei quem sabe um choque
Um piripaque, ou um baque, um calafrio ou um toque
Coisas naturais da vida como comer, caminhar
Morrer de morte matada. Morrer de morte morrida.
Quem sabe eu sinta saudade, como em qualquer despedida.

O melhor da Blockbuster

Wednesday, August 20th, 2008

Estou de molho em casa sem poder sair por causa de uma operação de nariz e garganta que fiz na sexta-feira passada.

Aproveito para botar em dia o meu lado cinéfilo com idas diárias à Blockbuster. São 3 filmes por dia, interrompidos por antibióticos e anti-inflamatórios.

Dessa leva, dois filmes me chamaram muito a atenção: “Into the Wild” e “Once”.

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Baseado no livro de John Krakauer, “Into The Wild” conta a história (real) de Chris McCandless que, cheio de problemas em casa e recém formado na escola com honras, resolve largar absolutamente tudo em nome da liberdade. Ele doa todo o seu dinheiro, picota seus cartões, queima seu Social Security Number, resolve adotar outro nome, queima suas últimas notas de dólares e larga o seu carro no meio do deserto e some sem deixar nenhuma informação.

chris_mccandless.jpg

Alex Supertramp (seu novo nome) resolve cruzar os Estados Unidos em direção ao Alaska selvagem.

Aqui cabe uma menção honrosa ao excelente trabalho do diretor. “Into The Wild” poderia ser perfeitamente uma aventura típica de Sessão da Tarde, se Sean Penn resolvesse usar os habituais clichés do cinema americano.

Mas não é nada disso.

O filme é de uma beleza irritante, de uma pureza e de uma sinceridade, que simplesmente não há como não ser pego pelo ideal de liberdade idealizado e vivido por “Alex Supertramp”, mesmo que esse ideal tenha o seu preço.

O sonho da liberdade está ao alcance de qualquer um, basta ter iniciativa.

A grande conclusão (sem estragar o final, para quem não viu ainda) é, que mais do que a conquista da liberdade, o que realmente importa é “compartilhar”.

once.jpg

“Once” está em outro ângulo, bem diferente – em termos de fotografia e até mesmo de história. Ainda assim, também mexeu com sentimentos parecidos de “Into The Wild”.

Filmado na Irlanda, é um filme escuro e melancólico. Conta uma história super simples de um cantor de folk de rua, que conhece uma vendedora de flores tcheca – e juntos acabam gravando um punhado de canções divinas.

Por vezes, o filme derrapa um pouco na fórmula “The Commitments”. Mas há algo mais do que os clipes que inevitavelmente estão lá.

Apesar de não ser uma história totalmente verídica, “Once” é um filme muito verdadeiro. Os protagonistas Glen Hansard e Marketa Irglova realmente existem. O filme é uma versão romanceada da vida de ambos. Glen é o líder da excelente banda “The Frames”. Marketa Irglova é uma pianista independente, que conheceu Glen em um show e juntos compuseram várias músicas, que entraram na trilha de Once. A mais relevante é a linda “Falling Slowly”, que ganhou o Oscar de 2008.

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Por toda sutileza da história, por toda a preocupação em não construir uma historinha de final feliz, e – no meio de muitas canções lindas – “Once” deixa uma mensagem bacana da importância em viver o momento.

Tudo pode parecer impossível e imprevisível. Mesmo quando não há um horizonte muito claro, quando não há perspectivas, ainda assim há a chance de você escrever um capítulo da sua história.

Isso vale pra qualquer um…

Na Irlanda, no Alaska ou no Brasil, não importa a idade e o que você faça da sua vida. Não importam as suas certezas. Um sonho precisa ser vivido.

De volta à Ditadura?

Saturday, July 26th, 2008

Eu tento evitar usar o Bullshitando para falar de assuntos ligados à minha profissão.

O meu blog nada mais é do que um exercício de liberdade, de falar sobre outros assuntos da minha vida e sobre o que acontece ao meu redor.

Hoje eu vou abrir uma exceção para falar, não sobre a minha profissão (publicitário) que trabalha diretamente ligado com uma marca de cerveja. Quero falar aqui sobre efeitos colaterais do cerceamento imposto pelo Governo, que cada vez mais vem à tona.

Podem apostar que eu não estou defendendo interesses do meu cliente. Definitivamente eu não parto dessa premissa para formar a minha opinião e nem divulgo meu Blog com interesses “eleitoreiros”.

Nessa última semana, completei um ano como Diretor de Atendimento de uma marca de cerveja. Obviamente aprendi muito, do ponto de vista estratégico e empresarial, mas passei também a entender e conviver com os limites impostos à publicidade.

Pode parecer incrível, mas o ofício de fazer publicidade no Brasil (especialmente de bebidas alcoólicas) é um verdadeiro exercício de esquiva de regras e condições.

Há cerca de 15 dias, eu participei do IV Congresso Brasileiro de Publicidade. A classe esteve praticamente toda reunida em prol da liberdade de atuação. Saí do encontro com a nítida impressão de ter participado de um movimento (bastante civilizado) pela democracia.

É praticamente o mesmo grito da sociedade brasileira ao longo dos anos de ditadura. Na teoria a ditadura acabou há mais de 20 anos, mas na prática o que estamos vendo é uma verdadeira afronta de um governo que demonstra claramente a intenção de tutelar os cidadãos.

As restrições ao conteúdo e ao horário nos comerciais de cerveja são apenas a ponta do iceberg. Começam a surgir iniciativas para restringir propaganda de alimentos não saudáveis (sic), de bebidas de baixo teor nutritivo (sic) e até mesmo de brinquedos.

Isso é CENSURA, meus amigos.

É o princípio da Ditadura, que o nosso Presidente, eleito pelo povo tanto lutou contra.

Se o Ministro da Saúde realmente quisesse cuidar da saúde do povo, que tratasse de dar melhores condições nos Hospitais públicos, que tratasse de investir no futuro dos médicos nas Universidades, que cuidasse da dengue e de tantas epidemias bizarras que já deveriam estar devidamente erradicadas em pleno século XXI.

Que fique aqui registrado o meu protesto não como publicitário, mas como um cidadão brasileiro indignado com a desfaçatez e hipocrisia de um Governo autoritário até o caroço.

Que venham dias melhores!

A vida perfeita

Monday, May 12th, 2008

O post de hoje não é meu. Ele foi escrito por um dos maiores gênios de todos os tempos: Charles Chaplin.

“A coisa mais injusta sobre a vida é como ela termina. Eu acho que o verdadeiro ciclo da vida está todo de trás pra frente. Nós deveríamos morrer primeiro, nos livrar logo disso. Daí viver num asilo, até ser chutado pra fora de lá por estar muito novo, ganhar um relógio de ouro e ir trabalhar. Então você trabalha 40 anos até ficar novo o bastante para poder aproveitar a sua aposentadoria. Aí curte tudo, bebe bastante álcool, faz festas e se prepara para a faculdade. Vai para o colégio, tem várias namoradas, vira criança, não tem nenhuma responsabilidade, se torna um bebezinho de colo, volta pro útero da mãe, passa seus últimos nove meses de vida flutuando, e termina tudo num grande orgasmo. Não seria perfeito?”

Isabella Nardoni (2002-2008)

Sunday, April 20th, 2008

isabella_nardoni.jpg

Passei as últimas semanas sofrendo muito com a história da pequena Isabella.

Não há como não se envolver com esse drama. Especialmente para mim, que sou pai de uma menina com o mesmo jeitinho, com o gosto parecido e exatamente com a mesma idade. Esse assunto tem me roubado algumas horas de sono, me fez de refém – como se eu conhecesse a pequena menina que morava pertinho daqui de casa e que foi brutalmente assassinada no dia 29 de março.

Tentei não me precipitar, tentei não seguir o caminho óbvio que a mídia tanto nos induz, mas hoje no Fantástico eu assisti a entrevista do pai e da namorada – que são os principais suspeitos do crime – e tirei algumas conclusões.

Como se fosse uma prova de confiança ou mesmo por entender o sentimento que um pai tem pela sua filha, eu tinha resolvido ser o seu “advogado de defesa” nessas 3 semanas agoniantes que passaram, quando ele passou boa parte do tempo preso, sendo massacrado pela Rede Globo, pela Veja e por outros veículos – assim como sua namorada. Parecia tudo muito imposto – e eu me recusei a aceitar isso.

Mas hoje eu não consegui sentir firmeza no pai. Não consegui ver o sofrimento transbordando no olhar de um pai que acabou de perder a filha dessa forma tão estúpida. Durante a entrevista, Alexandre Nardoni pareceu demasiadamente apático e conciliador. A namorada inconsolável falando dúzias de asneiras, também não me convenceu e pareceu ser um álibi perfeito.

Para ser honesto, em uma situação como essa, eu esperava total passionalidade. Eu precisava ver a fúria nos olhos de um pai com sede de vingança. Era fundamental que o momento ali fosse de total descontrole.

Eu não acho pertinente que ele fique dizendo que nunca levantou a voz para a filha (é claro que isso é mentira). Eu não esperava que ele ficasse se esforçando em provar a sua inocência e o seu equilíbrio na vida familiar. Parece cinismo e cagaço de quem pode passar 30 anos atrás das grades.

Na minha visão, a sua inocência poderia ser comprovada se a indignação e a raiva estivessem evidenciadas. Um pai em uma situação dessas, não pode esperar outra coisa do futuro que não seja a justiça – e de preferência com as próprias mãos.

Mas não: Alexandre Nardoni e Anna Carolina Jatobá passaram o tempo todo preocupados em provar a inocência e em mostrar as doces lembranças da filha que se foi. Pareceu coisa de uma gente doente e arrependida.

Por algum tempo segue a aflição de não saber ao certo o que aconteceu, mas cada vez mais a situação de Alexandre e Anna Carolina vai se complicando.

Como cidadão e como pai, eu espero sinceramente que a justiça seja feita.

Descanse em paz, Isa.

Tim Maia e o estado alterado da percepção.

Monday, March 31st, 2008

Semana passada eu estava conversando com o meu amigo Marcelo Nogueira da área de Criação aqui da agência sobre o livro do Tim Maia, que eu tinha acabado de ler.

O assunto era rico, porque a vida do Tim Maia é uma insanidade sem fim – e o livro que o Nelson Motta escreveu é ótimo. Nós dois gostamos da biografia – e parou por aí a nossa “concordância”.

Teve um ponto da conversa, que derivamos sobre outra questão, muito diferente das epopéias do gordão gente fina da Tijuca. Tim era um compulsivo em tudo na vida – principalmente com comida e drogas.

Eu falei pro Nogueira que achava que se não tivesse sido assim, ele não teria sido o Tim Maia do Brasil. Todos esses excessos eram necessários para que ele virasse um mito e um verdadeiro ícone da musica brasileira.

Fundamentei o meu argumento incluindo outros nomes de célebres artistas, famosos por seus excessos com as drogas: Kurt Cobain, Janis Joplin, Jim Morisson, Jimi Hendrix, Andy Warhol, Renato Russo, Cazuza, etc.

Nogueira foi de uma sinceridade cortante: ele me acusou de “romântico”. Não que isso me ofenda, mas fiquei perturbado com a situação e retruquei, dizendo que não tinha nada a ver com romantismo. Eu achava que os “excessos” eram uma forma de algumas pessoas libertarem o seu melhor, no melhor estilo “living on the edge”.

Ele discorda em gênero, número e grau da minha opinião. O Nogueira acha que isso pode ter limitado o potencial do artista, além de ter abreviado a sua vida.

Isso vindo de um profissional que eu admiro e que está habituado a criar sob enorme pressão – onde a lucidez é uma das suas principais ferramentas de trabalho – é, no mínimo, um grande argumento para que eu reflita melhor sobre o assunto.

O vício aumenta a sensibilidade ou limita a capacidade?

O bluesman Robert Johnson disse que para escrever suas melhores canções, ele precisava estar sofrendo. Não sei se isso estava associado ao consumo de algum tipo de droga, mas certamente é um estado alterado dos sentidos.

No final das contas, acho que a inspiração pode ter muito a ver com o excesso (ou escassez) de serotonina com uso (ou não) de “aditivos”.

Ahhh…e leiam o livro do Nelson Motta, porque é “totalmente excelente”.

Para finalizar, um vídeo legal do nosso “síndico”.

<a href="http://youtube.com/watch?v=zqRrmqDc8Vk">http://youtube.com/watch?v=zqRrmqDc8Vk</a>