O título desse post é a tradução literal do artigo que David Byrne escreveu na Wired de janeiro. É um longo título para um assunto que está abalando o abalado mercado musical, em todos os sentidos e para todos os lados ao mesmo tempo.
Se você quiser ler o artigo de Byrne, clique direto AQUI. A partir de agora, eu misturo o texto dele com minhas impressões.
Um dos pontos mais bacanas desse texo é a orientação dele. Byrne, como conhecedor de causa de ambos os lados (indústria X artistas), conseguiu depurar o que realmente importa – e ele concluiu que é o lado do artista. Por isso o texto tem esse título, 100% voltado para quem está começando – ou mesmo para quem está nisso há bastante tempo.
Pode parecer óbvio que o artista seja o centro da discussão, mas não é. Ao longo de tantos anos, os executivos da indústria criaram todo um mercado, toda uma forma de gerar lucro, além da idolatria. É como colocar em uma balança a razão contra a emoção – e música tem um quê de passionalidade.
Esse é um jogo de ganhar e perder (muito) dinheiro, de liberdade criativa contra a pressão pelo novo hit. São dois lados antagônicos que viveram às turras durante um longo casamento e que agora estão sentados em um tribunal discutindo a divisão de bens.
É esse o ponto crucial da história: a indústria (como a conhecemos) está separando-se dos artistas (como os conhecemos) e daí surgirá algo realmente novo de ambos os lados.
Atualmente não existe uma ordem. O Radiohead lançou o disco “In Rainbows” de um jeito totalmente diferente, com grande apelo na internet e diz que ganhou uma boa grana que a antiga gravadora (EMI) não passava para eles – os downloads remunerados da internet. A “best seller” Madonna largou um contrato gigantesco com a toda poderosa Warner Bros, para assinar com a Live Nation, uma divisão da Clear Channel, voltada para a organização de eventos.
Tudo está de cabeça para baixo mesmo.
O artigo de Byrne começa a ficar interessante quando ele estabelece o que é música. Há muitos anos atrás música era uma experiência, que só podia ser comprovada ao vivo e a cores. Isso foi antes de surgir qualquer técnica que propiciasse a gravação dos fonogramas. Ainda naquela fase, haviam os mecenas e gente que endossava os artistas – que viabilizava as apresentações. Talvez isso acontecesse sem a mesma fome pelos lucros que possuem os oligopólios de comunicações da atualidade. O fato é: antes de surgir a tecnologia de gravação, não era possível separar a música do evento social em si e mesmo para quem pagasse pelo evento, o que ficava era apenas a memória.
Não era possível copiar, vender, emprestar, trocar, reproduzir ou qualquer coisa nesse sentido. E assim, a história resume-se ao século 20 – que foi quando a tecnologia de gravação nasceu e evoluiu.
Assim como ele diz, eu não consigo imaginar a minha vida sem música. Passei a maior parte dos meus dias ouvindo, tocando e trocando música com meus amigos. Tenho mais de 2500 cds na prateleira da sala, tive muito vinil, muita fita-cassete e atualmente devo ter uns 200 DVDs. Meu iPod tem cerca de 1omil faixas. A música é a minha principal formação e fonte de informação. Muito do que sou está em letras de músicas. Minhas melhores e piores lembranças estão invariavelmente ligadas a músicas. Meu passado e meu futuro estão em músicas. A música interfere até no jeito de eu me vestir.
E para que surgiram as gravadoras? Para tornar tudo isso viável em escala. As principais funções das gravadoras eram prestar os seguintes serviços:
- Custear as sessões de gravações;
- Manufatura do produto;
- Distribuir
- Fazer marketing e promoção
- Adiantar uma grana para turnês, videoclips e equipe de apoio
- “Aconselhamento” dos artistas nas suas carreiras e discos
- Cuidar da contabilidade
Todos os custos de uma gravadora tinha o seu retorno na vendagem de discos (ou cassetes, ou vinis, ou qualquer mídia utilizada para gravar os fonogramas). E talvez esse tenha sido o grande pecado da indústria – ou mesmo, o seu pecado mortal.
Ao longo das últimas décadas, muito mudou – reduzindo substancialmente o valor desses serviços para os artistas.
O custo de gravação caiu vertiginosamente, chegando a praticamente zero. Para alguns artistas, um disco pode ser todo feito no mesmo laptop em que você lê um email.
O custo de manufatura e distribuição também reduziu drasticamente, considerando que a internet pode desempenhar esse papel.
Os shows também foram deixando de serem encarados como promoção para a venda dos discos. Na verdade, isso mudou completamente, fazendo a coisa funcionar quase que ao contrário.
E assim, Byrne teoriza sobre 6 modelos de negócios na música.
1) Sociedade
Todos os aspectos na vida do artista são de responsabilidade de produtores, promoters, empresários e marqueteiros. O artista vira uma marca, totalmente gerenciada por uma equipe. Normalmente, esses são acordos de longo prazo – possibilitando um planejamento profundo para a carreira do artista. Korn, Robbie Williams e Pussycat Dolls possuem contratos assim e absolutamente tudo que eles botam a mão (shows, camisetas, discos, videos, molho de churrasco, etc) viram dividendos para essa empresa.
O tal acordo da Madonna com a Live Nation é assim também. Os caras deram 120 milhões de dólares para ela – de agora em diante, mordem um pedaço de tudo que ela faz. E assim será por um longo tempo.
2) Acordo de distribuição tradicional
A gravadora assume custos iniciais de gravação, distribuição e promoção. O artista recebe royalties (percentual sobre vendas), após os custos iniciais terem sido ”recuperados”. Um detalhe: nesse cenário, a empresa fica com os direitos autorais dos fonogramas - para sempre.
A interferência da gravadora é grande. A busca pelos hits e singles é constante.
Esse é o modelo mais tradicional de todos. Até bem pouco tempo atrás, esse era o modelo de negócios em praticamente todos os casos.
Segundo Byrne, muitos artistas ficaram reféns das gravadoras – por não atingirem o patamar de vendas necessário para reestabelecer o valor adiantado. Ele usa como exemplo o Michael Jackson, MC Hammer e o TLC.
3) Modelo de Licensiamento
Essa forma de acordo é parecida com a anterior, mas aqui, o artista fica com todos os direitos e com a cópia da “fita master”. O direito de exploração para a gravadora é por tempo limitado (normalmente são 7 anos). Depois desse tempo o artista passa a ter direito integral de explorar os fonogramas.
Se um artista grava um disco e não precisa de apoio financeiro, esse é um formato bem interessante. Há menor interferência da gravadora no trabalho, mas pode haver menos investimento e entusiasmo por parte da gravadora.
De qualquer forma, esse modelo é interessante porque há uma clara preocupação de ambas as partes com os custos. Controle é o nome do jogo – e isso faz com que a relação fique interessante para os dois lados.
Quem opera assim: Arcade Fire com a Merge Records.
4) Divisão de lucros (profit sharing)
A gravadora adianta um valor mínimo para a produção do disco, como forma de estabelecer o contrato.
Desde o primeiro momento, as duas partes dividem despesas e lucros. O artista fica com a fita master.
5) Produção e distribuição
O artista compõe e assume os custos de gravação do material. O selo só entra depois que a fita master está pronta, para cuidar da manufatura do disco e da sua distribuição. Normalmente o trabalho de promoção e marketing também é feito por essa empresa.
Dificilmente grandes gravadoras fazem esse tipo de contrato. Aqui o artista tem controle total e simplesmente contrata o selo como fornecedor – remunerando-o de acordo com a vendagem dos discos ou mesmo dos shows em um acordo bem simples de “prestação de serviços”.
É uma grande aposta, mas tem gente que se dá muito bem dessa forma.
6) Distribuição própria (DIY – do it yourself)
Não há gravadora, não há produtora. O artista e sua equipe cuidam de absolutamente tudo.
Os discos são vendidos nos shows e em websites. A promoção é pela internet (My Space)…
Esse é o modelo adotado pela maioria das bandas independentes ao redor do mundo – e não necessariamente por opção (normalmente pela falta dela). O que está começando também a acontecer com grandes artistas, que possuem público fiel.
O Radiohead é um bom exemplo, mas alguns outros também estão indo por esse caminho. Aqui no Brasil já é assim com as bandas de axé e o fenômeno popular Calypso.
No final das contas, todos esses modelos podem evoluir ou desaparecer. E, na visão de Byrne essa é uma grande vantagem desses tempos. Ao invés de ficar lendo o noticiário que as grandes gravadoras estão indo para o ralo, os artistas precisam enxergar que as oportunidades existem e elas são muitas.
Fiz questão de escrever esse post, porque uma coisa que eu ainda penso em fazer é desenvolver um selo musical. Eu amo música e, desde que eu fui produtor de uma banda fantástica, percebi que não posso me distanciar desse mercado. é o que eu gosto e (acho que) tenho talento para a coisa.
O outro motivo é pelo fato de eu conhecer muitas bandas independentes, que por vezes não sabem muito o que fazer – nessa fase de tantas incertezas. Sem otimismo gratuito, fica claro que o importante é fazer shows e batalhar para ser cada vez mais conhecido por diferentes pessoas. O negócio é criar “lastro” e seguir em frente.
Dedico esse post gigantesco ao Gregg e ao China. Desejo muita sorte a esses dois grandes amigos e às suas excelentes bandas: Tontera e Stellabella.